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 Antonin Artaud I - Carta contra as restrições na venda do ópio

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MensagemAssunto: Antonin Artaud I - Carta contra as restrições na venda do ópio   Ter Dez 16, 2008 9:17 pm


Ao longo do post vários auto-retratos do artista, não sei especificar bem o ano de cada um
(com exceção do primeiro, no qual está marcado).


“Senhor legislador da lei 1936 sobre entorpecentes, aprovada por decreto em julho de 1917, você é um castrado.
A sua lei só serve para aborrecer a farmácia mundial, sem nenhum proveito para o nível toxicômano da nação, porque:
1 - O número dos toxicômanos que se abastecem nas farmácias é ínfimo.
2 – Os verdadeiros toxicômanos não se abastecem nas farmácias.
3 – Os toxicômanos que se abastecem nas farmácias são todos doentes.
4 – O número de toxicômanos doentes é ínfimo em relação aos toxicômanos voluptuosos.
5 – As restrições farmacêuticas à droga não reprimirão jamais os toxicômanos voluptuosos e organizados.
6 – Haverá sempre traficantes.
7 – Haverá sempre toxicômanos pelo vício das formas, por paixão.
8 – Os toxicômanos doentes têm sobre a sociedade um direito imprescritível, que é o de que os deixem em paz.

É sobretudo uma questão de consciência. A lei sobre entorpecentes põe nas mãos do inspetor-usurpador da saúde pública o direito de dispor da dor dos homens - numa pretensão singular da medicina moderna de querer impor suas regras à consciência de cada um. Todos os berros oficiais da lei não têm poder de ação perante este fato de consciência: ou seja, mais ainda que da morte, eu sou dono da minha dor.

Todo homem é juiz, e juiz exclusivo, da quantidade de dor física, ou também de
vazio mental que possa honestamente suportar.
Lucidez ou não lucidez, tem uma lucidez que nenhuma enfermidade me arrebatará jamais, é aquela que me dita o sentimento de minha dor física. E se eu perdi minha lucidez, a medicina não tem outra coisa a fazer que dar-me substâncias que me permitam recobrar o uso desta lucidez. Senhores ditadores da escola farmacêutica da França, os senhores são todos uns petulantes mesquinhos; tem uma coisa que deveriam considerar melhor; o ópio é essa imprescritível substância que permite devolver a vida de suas almas àqueles que tiveram a desgraça de perdê-la.

Tem um mal contra o qual o ópio é soberano e este mal se chama Angústia, em sua forma mental, médica, psicológica, lógica ou farmacêutica, como os senhores queiram.
A Angústia que faz os loucos. A Angústia que faz os suicidas. A Angústia que faz os condenados. A Angústia que a medicina não conhece. A Angústia que o seu médico não entende. A Angústia que acaba a vida. A Angústia que corta o cordão umbilical da vida.


Pela sua lei iníqua, os senhores põem em mão de pessoas nas quais eu não tenho a menor confiança, castrados em medicina, farmacêuticos de porcaria, juízes fraudulentos, doutores de parteiras, inspetores doutorais, o direito de dispor da minha Angústia, uma Angústia que é em mim tão aguda quanto as agulhas de todas as bússolas do inferno.
Tremores do corpo e da alma, não existe sismógrafo humano que permita a quem me olhe chegar a uma avaliação mais precisa de minha dor, do que aquela fulminante, feita pelo meu espírito!
Toda a fortuita ciência dos homens não é superior ao conhecimento imediato que posso ter do meu ser. Sou o único juiz do que se passa comigo.
Voltem aos seus sótãos, médicos parasitas, e você também, senhor legislador Mountonnier, que não é por amor aos homens que você delira, é por tradição de imbecilidade. A sua ignorância acerca do que é um homem é apenas comparável à sua estupidez na pretensão de limitá-lo. Desejo que a sua lei recaia sobre o seu pai, sobre sua mãe, sobre sua mulher e os seus filhos, e toda a posteridade. Enquanto isso, suporto sua lei.”


Existe um manifesto de Artaud, divulgado em La Révolution Surréaliste (1925), de nome “Segurança Pública: A Liquidação do Ópio” (publicado no Brasil em Escritos de Antonin Artaud, tradução, notas e prefácio de Claudio Willer, L&PM, 1983 e reedições).Nele, o futuro criador do Teatro da Crueldade, antecipando o que ainda diria a respeito em suas Cartas de Rodez e outros lugares, criticava a proscrição do ópio e de outras drogas. Tomava a defesa dos dependentes ou viciados, pedindo que os deixem em paz:

“Há almas incuráveis e perdidas para o resto da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura: inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na sua essência - só por uma usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade.
Deixemos que os perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar uma recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial.
Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero.”



Artaud by Gilbert Chaudanne - 1982
oil on canvas - 52 x 41,4
É uma passagem - assim como tantas outras em Artaud - de um pessimismo radical. Mas sua antevisão das conseqüências dessa proibição foi precisa:

“Aqueles que ousam encarar os fatos de frente sabem - não é verdade? - os resultados da proibição do álcool nos Estados Unidos.
Uma superprodução da loucura: cerveja com éter, álcool carregado com cocaína vendido clandestinamente, o pileque multiplicado, uma espécie de porre coletivo. Em suma, a lei do fruto proibido.
A mesma coisa com o ópio.
A proibição, que multiplica a curiosidade, só serviu aos rufiões da medicina, do jornalismo, da literatura. Há pessoas que construíram fecais e industriosas reputações sobre sua pretensa indignação contra a inofensiva e ínfima seita dos amaldiçoados da droga (inofensiva porque ínfima e porque sempre uma exceção), essa minoria de amaldiçoados em espírito, alma e doença.” (
Retirado da Revista Agulha)
.
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