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 Noite do Inferno, por Arthur Rimbaud

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Neide
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MensagemAssunto: Noite do Inferno, por Arthur Rimbaud   Qua Dez 17, 2008 1:20 pm



“Engoli um belo trago de veneno. - Que seja três vezes abençoado o conselho que me aconteceu! - As minhas entranhas ardem. A violência do veneno torce meus membros, me deixa disforme, me derruba. Estou morrendo de sede, sufoco, não posso gritar. É o inferno, eterna pena! Vejam como o fogo se levanta! Queimo como deve ser. Vá, demônio!
Eu havia enxergado a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Poderei descrever a visão, o ar do inferno não suporta os hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que mais?
As nobres ambições!
E é ainda a vida! - Se a danação for eterna! Um homem que quer se mutilar está danado, não é mesmo? Eu me acredito no inferno, portanto estou. É a execução do catecismo. Sou escravo de meu batismo. Pais, vocês fizeram a minha desgraça e fizeram a vossa. Pobre inocente! O inferno não pode atacar os pagãos. - É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação serão mais profundas. Um crime, rápido, que eu caia no nada, pela lei humana.

Cale a boca, mas cala-te!... E a vergonha, a crítica, aqui: Satanás que diz que o fogo é vil, que minha raiva é terrivelmente boba. - Chega!... Erros que me sopram, magias, perfumes falsos, músicas infantis. - E pensar que eu tenho a verdade, que eu vejo a justiça: tenho um juízo são e decidido, estou pronto para a perfeição... Orgulho. - A pele de minha cabeça resseca. Piedade! Senhor, tenho medo. Tenho sede, tanta sede! Ah! a infância, a grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando a torre da igreja tocava doze, o diabo está na torre, a esta hora. Maria! Santa Virgem!... Horror de minha besteira.
Lá, não serão almas honestas, que me querem bem... Venham... Tenho um travesseiro na boca, elas não me ouvem, são fantasmas. Além disso, nunca ninguém pensa no outro. Que não se aproximem. Eu sinto o queimado, com certeza.
As alucinações são inúmeras. É bem o que eu sempre tive: sem fé na história, o esquecimento dos princípios. Calarei isto: poetas e visionários ficariam com ciúmes. Sou mil vezes o mais rico, sejamos avarentos como o mar.
Ah, isto! o relógio da vida parou há pouco. Não sou mais ao mundo. - A teologia é séria, o inferno é certamente embaixo - e o céu em cima. - Êxtase, pesadelo, sono num ninho de chamas.
Quantas malícias na atenção no campo... Satanás, Ferdinando¹, corre com as sementes selvagens...

Jesus anda sobre espinhos purpurinos, sem curvá-los... Jesus andava sobre as águas irritadas. A lanterna nos mostrou ele de pé, branco e com tranças morenas, no flanco de uma onda de esmeralda...
Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, vazio. Sou mestre e fantasmagorias.
Escutem!...
Tenho todos os talentos! - Não há ninguém aqui e há alguém: eu não gostaria de derramar meu tesouro. - querem cantos negros, dansas de huris²? Querem que eu desapareça, que mergulhe à procura do anel? Querem? Farei ouro, remédios.
Confiem então em mim, a fé alivia, guia, cura. Todos, venham - mesmo as crianças - que eu vos console, que se derrame para vocês o coração - o coração maravilhoso! - Pobres homens, trabalhadores! Não peço rezas, com a vossa confiança somente, serei feliz.
- E vamos pensar em mim. Isto me faz um pouco lamentar o mundo. Tenho sorte de não sofrer mais. A minha vida foi só loucuras doces, é uma pena.


Bah! façamos todas as caretas imagináveis.
Decididamente, estamos fora do mundo. Nenhum som. Meu tato desapareceu.
Ah! meu castelo, minha porcelana, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias... Cansei!
Eu deveria ter o meu inferno para a raiva, meu inferno para o orgulho e o inferno da carícia; um concerto de infernos.
Morro de cansaço. É o túmulo, vou aos vermes, horror do horror! Satanás, brincalhão, você quer me dissolver, com teus charmes. Eu reclamo. Eu reclamo! uma espetada, uma gota de fogo.
Ah! voltar à vida! Jogar os olhos nas nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! A minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconda-me, não sei me comportar! - Estou escondido e não estou.
É o fogo que se levanta, com seu danado.”

¹ Ferdinando: nome popular dado ao demônio na região das Ardenas.
² Huris: virgens muito belas prometidas no Paraíso ao fiel Muçulmano.



O Inferno de Rimbaud – visões sobre o texto


"Portrait D'Arthur Rimbaud" by Valentin Hugo. 1933

“Le combat spirituel est aussi brutal que la bataille d'hommes; mais la vision de la justice est le plaisir de Dieu seul.” ("A luta espiritual é tão brutal quanto a batalha dos homens; mas a visão da justiça é prazer só de Deus.")

Esta frase é da última página de Uma Estadia no Inferno, que termina assim: "eu vi o inferno das mulheres lá - e me será permitido possuir a verdade numa alma e num corpo".
O único livro que Arthur Rimbaud publicou em vida foi custeado por ele e pela mãe e vendeu pouquíssimos exemplares: Une Saison en Enfer, Uma Estação no Inferno, que preferimos traduzir em português por Uma Estadia no Inferno, embora também já tenha sido traduzido como Uma Temporada no Inferno. O livro foi publicado em outubro de 1873 por uma pequena gráfica de Bruxelas, na Bélgica, mas na hora de efetuar o pagamento faltou dinheiro ao poeta, e quinhentos exemplares ficaram retidos. Isabelle Rimbaud afirmou, depois, que o irmão havia queimado a obra, e Paul Claudel chegou a escrever "...a chaminé ornada com uma grande cruz onde ele queimou seus manuscritos". No entanto, em 1901, o bibliófilo Leon Losseau encontrou pacotes que continham a Estadia. Quando o livro ficou pronto, Paul Verlaine estava na prisão por ter atirado em Rimbaud . Rimbaud deve ter deixado um exemplar com dedicatória ao amigo na portaria da cadeia. Se um dia alguém encontrar esse livro, terá ganho mais que o prêmio da loteria.
Posso afirmar que Rimbaud viveu a sua estadia no inferno na primavera de 1872. De março até início de maio, ele estava nas Ardenas, nordeste da França, longe de Verlaine. O que me parece seguro:
a) Rimbaud realmente viveu o inferno. Sei disso graças à experiência da loucura.
b) Ele teve sede. O tema da sede aparece na Noite do Inferno e em quase todos os poemas de maio e junho 1872 ("Lágrimas", "Comédia da Sede", "Bandeiras de Maio", "Canção da mais Alta Torre" etc.)
c) A estação no inferno não pode ter acontecido em 1873, já que Rimbaud escreve sobre ela desde abril, nem em 1871, pois ele tem então outras atividades e preocupações. Acontece que a estação só pode ser a primavera ou o verão (ver "Adeus"). Portanto, março e abril de 1872.
Além disso, o único escrito de Rimbaud conhecido nesse período (trecho de carta a Verlaine de abril 1872, citado pelo amigo Ernest Delahaye) é propriamente delirante. E "Adeus" se refere à viagem de navio para Londres em 4 de setembro 1872; portanto, poucos meses depois da estação infernal.


Acredito que Rimbaud (assim como Verlaine, Baudelaire e outros grandes poetas) diz a verdade. Não são apenas imagens ou metáforas, é verdade. Quando Rimbaud afirma ser vidente, muitos eruditos ou universitários franceses consideram tal coisa uma bela invenção literária e não chegam a encarar o fato nu e cru: Rimbaud via coisas que a maioria das pessoas não costuma ver. Indo mais longe, se Rimbaud as viu, é porque essas coisas existiram ou existem, não são apenas fruto de sua imaginação. Por essa razão, aqueles que não acreditam em nada que não esteja explicado nos livros escolares perdem uma das grandes forças da poesia.
Outro erro costumeiro dos críticos é querer explicar Uma Estadia no Inferno pela Comuna de Paris. Rimbaud assistiu a essa grande revolta do povo de Paris, que ele defende e retrata em alguns poemas e talvez também em "Democracia", nas Iluminações. Também é verdade que a Estadia é autobiográfica, mas como escreveu Verlaine em Os Homens de Hoje "...espécie de prodigiosa autobiografia psicológica", e não uma autobiografia política. Noite do Inferno, além de Virgem Louca e Alquimia do Verbo são textos essenciais para se entender a luta e o sofrimento que Rimbaud viveu, sem esquecer que os dois últimos - e só eles - estão reunidos sob o título "Delírios".
Parte da obra de Rimbaud foi perdida, a esposa de Verlaine chegou a destruir manuscritos. Verlaine escreveu em Os Poetas Malditos, de 1884, que o poema desaparecido "Les Veilleurs" (Os Veladores) lhe causou a mais forte impressão que jamais sentiu com a poesia! Cita ainda "Les Réveilleurs de la Nuit" (Os Acordadores da Noite) e faz um apelo a quem possuir algum outro para ter a generosidade de o divulgar. O segundo livro em prosa, Iluminações ou Iluminuras, foi publicado à revelia de Rimbaud, e a ordem dos textos é arbitrária. As folhas estiveram com o poeta Germain Nouveau, com o cunhado de Verlaine, com outras pessoas ainda e acabaram nas mãos do escritor Felix Fénéon, cuja classificação dos primeiros textos é a tradicional. Juntaram-se depois os cinco últimos: Fairy, Guerra, Juventude, Liquidação e Gênio. Um estudo exaustivo das correspondências de Rimbaud, Verlaine, Nouveau e Delahaye poderia talvez desvendar outros enigmas desse período da vida de Rimbaud.
Existem muitos mitos sobre a vida de Rimbaud. Um deles é o de que teria feito tráfico de escravos em seus anos de África. Isso é uma calúnia, e embora Rimbaud tenha vendido armas na tentativa de enriquecer (e talvez provar à família que era alguém "sério"), jamais negociou vidas humanas. Outro mito muito enraizado é o da sua tão falada ligação homossexual com Verlaine.



Paul Verlaine, em registro feito por Dornac entre 1895-1896.
Na mesa, a inseparável garrafa de absinto.


Apesar das aparências, é quase certo que Rimbaud não era homossexual, mas Verlaine, depois de dois anos de prisão na Bélgica, tornou-se bissexual e deixou correr a lenda de que teria tido um caso com Rimbaud. Na verdade, quando Rimbaud e Verlaine viajaram juntos à Bélgica e à Inglaterra, Verlaine era recém-casado, e os ciúmes de sua jovem mulher Mathilde ajudaram a reforçar essa lenda. Verlaine atirou em Rimbaud estando fora de si, bêbado e profundamente deprimido. Havia comprado a arma com a intenção de se matar ou... engajar-se no exército espanhol. No julgamento de Verlaine, ambos atestam sob juramento que a acusação de homossexualismo entre eles é uma mentira, segundo Verlaine, "inventada pela minha mulher para me prejudicar", pois os pais de Mathilde queriam que ela se separasse deste poeta escandaloso.
Uma Estadia no Inferno é o relato de um misto de delírio e luta espiritual que o jovem Rimbaud viveu na primavera de 1872, nas Ardenas. Arthur Rimbaud e o brasileiro Álvares de Azevedo são casos raríssimos de uma grande obra literária escrita antes dos vinte anos de idade. A nossa tradução procurou sempre se manter a mais fiel possível, pois Rimbaud, que já é um poeta bastante difícil, torna-se incompreensível se o tradutor - como infelizmente tantos hoje no Brasil - não tiver a humildade e a honestidade de ser fiel ao original. De onde vem a força da poesia? Da verdade que ela profere.


Texto de Daniel Fresnot. Nascido na França em 1948, é doutor em Letras pela Sorbonne. Autor do romance A Terceira Expedição e livros de contos e poesia, incluindo Suzana, prosa e outros versos e Rimbaud por ele mesmo, publicados pela Editora Martin Claret. Também é industrial e fundou a Casa Taiguara, que acolhe dia e noite crianças de rua no centro de São Paulo.

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Última edição por Neide em Sab Dez 20, 2008 5:26 pm, editado 2 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Noite do Inferno, por Arthur Rimbaud   Qua Dez 17, 2008 1:22 pm

“Une Saison en Enfer...

é a autobiografia metafísica de Rimbaud, e um texto seminal na história da literatura moderna. Tem a forma de uma “confissão” e, a exemplo de outras confissões, como as de Santo Agostinho, Cellini, Montaigne e Rousseau, envolve gêneros diversos: autobiografia, filosofia, psicologia, história, teologia. A confissão de Rimbaud difere de todas as demais não porque não contém nenhum dos modos anteriores de conhecimento e discurso, mas por ser tão tão breve e pela excelência exuberante de sua tessitura.
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Rimbaud (à direita) e seu irmão Frédéric no período da Primeira Comunhão
A violência da obra não está nas idéias, nos conceitos ou fatos, mas nos ritmos, no movimento das frases e nos símbolos que fulgem no texto. Toda confissão deve, necessariamente, ver-se às voltas com o tema do mal, a luta travada entre um homem e o mal. Une Saison não é exceção. Mas trata-se de uma estranha narrativa em que a metafísica assume lugar preponderante e o significado do mal é continuamente convertido no significado da ação e no significado das palavras. Poesia é a arte na qual a articulação das expressões, seu ritmo físico e sua respiração são tão cruciais quanto o significado das palavras. Isso se aplica tanto a Une Saison, onde o significado do sofrimento humano é comunicado pelo ritmo das pulsações – sua violência e irregularidade, seu arroubo e delicadeza, seu clamor e reticência - , que a obra pode ser definida como o poema de uma confissão.
A sensação de ser “diferente”” transforma automaticamente o menino Rimbaud em vítima, e o personagem vítima é a primeira máscara do poeta. Ele é a hiena, o animal noturno que deve ser caçado. A fera selvagem de Rimbaud lembra o lobo de Vigny, o pelicano de Musset, o hipopótamo de Gautier, o albatroz de Baudelaire. Todos são nomes para o artista, o bode expiatório sacrificial.

Nuit de L’Enfer...

O anúncio que Rimbaud faz da busca por sua inocência é imediatamente seguido por uma passagem que narra com realismo sua precipitação no inferno. Somente os danados sabem de fato o que perderam. Estamos no domínio literal do fogo que cerca o pecador, infinitamente mais apavorante do que a prisão do sentenciado e o deserto da hiena. O sentenciado e a hiena foram exilados pelo mundo, mas agora o poeta se vê no papel de pecador, que é um exílio voluntário em relação ao Criador. Esse novo terror é eterno. “Estou escondido e não o estou”. Ele fugiu do mundo e é agora visto pelo mundo.”

Texto do livro “Rimbaud e Jim Morrison – os poetas rebeldes”, de Wallace Fowlie. Ed. Campus, 2005; pp 76, 77, 79
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