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 Van Gogh – Cartas a Théo II

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MensagemAssunto: Van Gogh – Cartas a Théo II   Seg Dez 22, 2008 4:36 am



Anciã Adormecida (1873)
...Resta-lhe um caminho a tomar. Alguém que não possa educar-se na arte, pode, ao menos, se quiser, tornar-se um justo aos olhos de Deus ( para esta situação específica, ou seja, uma pessoa que teve fortíssima influência religiosa desde cedo, nada mais natural que venha a pensar assim) “Sinto-me atraído pela religião”, escreverá ele a Théo. “Quero consolar os humildes. Acredito que o ofício de pintor ou de artista é belo, mas creio que o ofício de meu pai é mais sagrado. Gostaria de ser como ele...” Abandona a escola de Isle Worth e passa a servir um pastor, Mr. Jones. Ei-lo pregador. Mas não tem nenhum preparo, nenhum dom de oratória. Despedem-no. Novamente no Natal bate à porta da casa paterna, fracassado, outra vez.



Canal (Outono 1872-Primavera 1873)
Novamente o tio Vincent, de Princehage (por isso coloquei as fotos familiares na montagem anterior, são muito citados) encontra-lhe um modesto emprego de escriturário numa livraria em Dordrecht. Ele aceita, e toma a resolução de transformar totalmente sua vida. “Não estou só”, diz ele, “pois Deus está comigo. Quero ser pastor. Pastor como meu pai!” Este apelo, repetido, não ficaria sem resposta. O pastor Van Gogh reúne um conselho de família. Concordam em enviar Vincent à Universidade de Amsterdam. Lá, ele residirá na casa de um de seus tios, na Marineweff. Imediatamente Vincent atira-se aos estudos. Mas estudar torna-se para ele uma tortura. De maio de 1877 a julho de 1878, se consome em esforços...para afinal abandonar os estudos e voltar, uma vez mais, à porta da casa de Etten.
Desiste da Universidade. Resolve que quer ser missionário entre os pobres mineiros do Borinage. Para isto, basta-lhe seguir durante 3 meses os cursos da escola preparatória evangelista de Bruxelas. E, portanto, vai a Bruxelas. Lá, as mesmas dificuldades. Vincent conhece mal o francês e não tem nenhum dom de oratória. Não é nomeado. O pai acorre junto ao filho desamparado. Finalmente dão a Vincent uma missão de 6 meses.
Nos últimos dias de dezembro, as pessoas do burgo de Paturages, próximo a Mons, vêem chegar um homem vestido com roupas muito simples. Sabem que ele está hospedado em casa do mascate Van der Haegen, que é pastor, e que vem da Holanda. Logo, todos já o conhecem. Ele visita os doentes e os reconforta, lê para eles o Evangelho. Algum tempo depois, deixa Paturages para ir a Petites Wasmes, a algumas léguas dali.
Wasmes é o coração do Borinage, o centro do “país negro”, das minas de carvão, sucessão de colinas cortadas por barrancos em terra viva nos quais, aqui e ali, aparece a hulha (carvão). Ao sul, grandes bosques fecham o horizonte. Nesta região, há séculos, vive um grupo de homens que passa metade de suas vidas agitando-se nas entranhas da terra. Esta atividade subterrânea revela-se à superfície do solo: vêem-se altas gaiolas, grandes pirâmides negras, duas vezes mais altas que as casas, clarões avermelhados sobre os quais flutuam vapores cinzentos e fumaças sombrias. Uma paisagem humana que não deixa de ter sua grandiosidade. À noitinha as janelas do botequins se iluminam, enquanto que as mulheres, ao fundo, ocupam-se de suas cozinhas. Esses mineiros são pobres mas suas vidas não são apenas misérias e provações. Vincent, no entanto, só vê tristeza e opressão. E, na intenção de aliviá-las, dedica-lhes o zelo de um apóstolo. Entrega-se por completo à sua exaltação mística. Passa a viver numa cabana de tábuas, dorme na terra nua, usa um velho camisão de soldado; cuida dos doentes de tifo, despoja-se até de suas roupas. No entanto, ele é mau pregador e seu comportamento, londe de levar os mineiros à virtude, os impressiona e escandaliza. Ao mesmo tempo ele continua a desenhar nos poucos momentos livres que se permite.
Entretanto sua missão não é renovada pelo Consistório (assembléia de religiosos). Novamente, Vincent está perdido. Volta a pé, sem um tostão, detém-se em Bruxelas na casa de um amigo, e a seguir, em agosto de 1879, mais uma vez vai bater á porta da pobre casa de Etten.
Só que agora não há mais lugar na sua casa. Conseguirá viver só? Ele parte, o cajado nas mãos, mochila às costas, de volta ao Borinage.
Começa então o mais sombrio período de sua vida. Ele caminha aqui e ali, sob o vento do outono, sob o vento do inverno. Dorme à beira dos caminhos, em celeiros, debaixo de carroças. E de que vive? Do pouco dinheiro que Théo lhe envia (pouquíssimo, diga de passagem...). Théo chega até a achar meios de encontrá-lo, de dizer-lhe algumas palavras esperançosas, de encorajá-lo enfim em sua vocação de pintor. Vincent caminha durante oito dias para ir a Carrières ver Jules Breton, a fachada imponente da casa o intimida a ponto de não ousar bater à porta. Volta a Cuesmes. A seguir, na primavera, retoma o caminho para o norte, e volta a Etten...Algumas semanas depois, está novamente no Borinage.
Apesar de todas as dificuldades e angústias ele, enfim, acredita ter descoberto o seu caminho: será pintor, nada mais que pintor!! (e por quanto sofrimento e desvalorização ele teve que passar para se aperceber disso...)
É julho de 1880 quando ele escreve a carta na qual abre-se profundamente a Théo, na qual descreve a horrível angústia em que se encontra, suas lutas, seus desesperos, e também sua esperança radiante (esta será a primeira, das várias cartas do livro, que transcreverei na íntegra nos próximos posts). Teria alguém jamais escrito apelo tão comovente, tão dilacerante? Théo ficou profundamente emocionado. E ficou também completamente convencido. A partir de então, se dedicará inteiramente ao irmão. Esta ajuda, que até o momento lhe dedicara por pura afeição, agora compromete-se a continuá-la para sempre, porque confia. Acredita realmente em Vincent. E é graças a esta confiança que o gênio de Vincent aparecerá.
Desde então, eles tornam-se ainda mais ligados. A correspondência fica mais freqüente ainda; não se passa uma só semana, e logo um só dia, sem que o coração tumultuado de Vincent não se derrame: é um diálogo ininterrupto. Vincent relata tudo o que vê, tudo o que faz, tudo o que pensa.




Mineiros na Neve (Esboço tirado de uma carta, agosto de 1880)
Outubro de 1880. Vincent instala-se em Bruxelas. Ali permanece até abril, retornando a Etten, onde sabe que reencontrará Théo. Ficará em Etten até dezembro. Mas estoura um novo drama: ele se apaixona por uma prima. Declarações, recusas, desespero – aos quais vem se acrescentar a cólera paterna. E Vincent torna a partir. Antes mesmo do Natal está em Haia, onde se aconselha e aprende com seu primo, o pintor Mauve.
A Mauve pertencerá a honra de ter reconhecido o talento nascente de Vincent. Mauve faz tudo o que pode por seu primo. Encontra-lhe hospedagem, arruma-lhe trabalho. Mas um dia o caráter ferozmente independente de Vincent se revela mais uma vez – e vem a briga.



Angelus (outubro de 1880, Bruxelas)


Camponesa Francesa Amamentando seu Bebê
(Etten ou Brussels Verão-Primavera 1880-1881)
Em fevereiro, numa noite de vadiagem, ele encontra uma mulher bêbada, que se propõe a posar para ele. Ele a leva ao ateliê, juntamente com sua filha, e começa então a banal e lamentável aventura que durará cerca de vinte meses. “Sien”, como era conhecida Clasina Maria Hoornik, desaparece finalmente de sua vida em setembro de 1883, mas marcará a vida do pintor pelo sofrimento eternizado em pungentes desenhos da série “sorrow”. E Vincent interna-se, no norte, na região de Drenthe. Antes do Natal, ele mais uma vez baterá á porta da casa paterna em Nuenen. Será a última.



Sien com cigarro sentada no chão perto do fogareiro (abril de 1882)



Sien Cuidando do Bebê (Hague – Setembro de 1882)



Desenho pertencente à série “Tristeza” (abril de 1882)
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