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 Documentário Dona Helena, por Dainara Toffoli (2004)

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MensagemAssunto: Documentário Dona Helena, por Dainara Toffoli (2004)   Sex Out 22, 2010 1:57 am

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"Do barulho eu não gosto não, mas eu acho a coisa mais linda os dedos desses meninos roqueiros, que quase se perdem nas cordas..."

Helena Meireles foi uma mulher do sertão. Criada para ser esposa, esta sul-mato-grossense abriu mão das tradições e percorreu um caminho penoso até chegar à indicação como uma das maiores tocadoras de instrumentos de cordas do mundo pela revista norte-americana Guitar Player, a mais famosa e respeitada publicação especializada do setor. Na conversa a seguir, que aconteceu quando a artista estava com 79 anos, essa verdadeira encantadora das violas contou um pouco de como viveu, as dificuldades que enfrentou e como conviveu com o sucesso. Helena morreu dois anos depois da entrevista, na casa dela, em Campo Grande (MS), vítima de parada cardiorrespiratória. Além da fascinante história de uma mulher que já enfrentou muitas situações inusitadas, “até morar na zona”, como ela mesma relatava, Helena tinha uma interessante forma de avaliar o machismo da fronteira, as dificuldades modernas da mulher e até o posicionamento dos governantes com relação à cultura regional.

PantanalROCK.com.br – A senhora se diz uma mulher do sertão. O que é ser essa "mulher do sertão?
Helena – Eu nasci e me criei no sertão dessas terras fronteiriças que ainda eram Mato Grosso. Eu nasci no meio de um chimarrão. Minha mãe conta que tinha uma cadelinha parida e que aos cinco meses eu mamava na bichinha. Achavam que por isso eu fiquei brava.Cresci lidando com animal brabo e esticando cerca de arame. Mulher nesse tempo não vadiava não. A gente trabalhava tudo igual no mato.

PantanalROCK.com.br – E como a senhora descobriu o talento musical?
Helena – A gente festava muito, e nisso fui aprendendo um pouquinho. Desde pequena eu tocava de tudo. Lembro que grudava uma gaita com cera derretida na viola pra tocar os dois ao mesmo tempo. Eu nunca tinha visto música antes, mas aí meus primos começaram crescer junto com os paraguaios, e nossa música era a mesma. Fui aprendendo assim.

PantanalROCK.com.br – E quando a senhora começou tocar profissionalmente?
Helena – Ih... A estória é longa. Eu casei nova pra sair de casa, mas não deu certo. Ai arrumei outro mas ele era muito mulherengo e achei que não valia a pena. Um dia me deu vontade, dei tchau pra ele e disse que tava indo morar numa zona onde eu podia tocar minha viola e ter comida e estadia.

PantanalROCK.com.br – Como foi a experiência?
Helena – Eu era muito boba, e quem me ensinou tudo da vida foram as prostitutas. Fui mulher de zona, mas era de muito respeito. Não ria pra ninguém, só tocava e bebia. Minha maior alegria era com a minha música. Toquei muito tempo pra peonada que parava no Porto XV, mas aí, com o caminhão, acabou a comitiva pra carregar o gado e o movimento foi diminuindo. Hoje acho que as mulheres de lá já morreram todas.

PantanalROCK.com.br – A senhora acha que enfrentou essas situações por opção?
Helena – Enfrentei foi por falta de opção. Nunca estudei nada. Nem sei o que é escola. Aprendi assinar meu nome pra evitar a vergonha de ficar manchando o dedão. Falta opção pra muita gente perdida nesse pantanalzão. Os governantes deviam dar mais opção de escola. Tem muito coitado por aí que até hoje é criado que nem bicho.







PantanalROCK.com.br – E como a senhora chegou à gravadora?
Helena – Resolvi sair da zona com um companheiro, e estou com ele faz 43 anos, mas acho que mulher não precisa de homem pra ser feliz. Enfrentei muita dificuldade. Cheguei a tirar da minha boca para meus filhos. Hoje graças a Deus tenho tudo que preciso, mas ainda vivo atropelada. Até hoje sou arrimo de família. Quando era mocinha, namorei um paraguaio e só não casei porque meus pais não deixaram. Depois disso, nunca dei asa pra homem nenhum e sempre quis ser dona de mim mesma...

PantanalROCK.com.br – A senhora acha os homens da fronteira machistas?
Helena - Quem deixa os homens safados são as próprias mulheres. Hoje em dia todas andam peladas, olhando de soslaio por aí. E a maioria dos homens não se respeita, acham brecha e vão entrando. Antes a mulherada ficava no cabaré, mas hoje em dia a gente vê meninos transando com as meninas em beira de muro por aí. Hoje os decentes são brega. Quando penso nisso tudo, acho que a vida já não é mais doce. Hoje ela é amarga.

PantanalROCK.com.br – Por que a senhora saiu do estado?
Helena – Sou filha dessa terra, mas este é um lugar muito ingrato. Deviam ter me descoberto aqui antes de eu ter que sair pra sobreviver. Tem muitos artistas perdidos aqui e falta oportunidade, mas depois que a gente conquista tudo por aí, sozinho, aí eles dão bola pro trabalho da gente. Comecei a tocar em Santo André, quando mudei pra lá.

PantanalROCK.com.br – A senhora foi bem aceita em São Paulo?
Helena – Primeiro disseram que minha música não dava certo, porque pra lá música é esse negócio de bundinha na garrafa, essas coisas... Aí um sobrinho meu gravou uma fitinha e mandou pra um monte de lugar. De repente, ele apareceu com a revista lá. Saí em várias publicações ao lado dos maiores roqueiros porque eles gostaram do meu jeito de tocar viola. Aí as gravadoras me pegaram pelas duas mãos.

PantanalROCK.com.br – Quando a senhora gravou pela primeira vez?
Helena – Foi há dez anos que saiu o primeiro CD, e até hoje a gravadora nunca me disse quanto foi vendido mesmo. Esse povo acaba ficando com a maior parte do que os artistas produzem, e ainda tem os piratas...

PantanalROCK.com.br – A senhora não acha que pirateiam porque o CD é muito caro?
Helena – Não. Caro não é porque compram tudo. Caro não é mesmo, porque até pobre compra.

PantanalROCK.com.br – Depois da gravadora a senhora mudou alguma coisa no jeito de tocar?
Helena – Minha música é natural. Ela vem de Deus. Uma vez me perguntaram sobre uma tal de parte... Como que é... partitura, e eu nem sabia o que era. Toco tudo só com três cordas. Sou do tempo que o peão, pra pegar na viola, ia pra encruzilhada ou fazia acerto com cascavel.

PantanalROCK.com.br – O que a senhora acha da produção musical no Brasil?
Helena – Não desfaço de ninguém, mas nunca gostei desse negócio de ESSA PALAVRA É PROIBIDA. Prefiro mais uma guarânia, um vanerão. Sou bem fronteira mesmo. No tempo antigo os mato-grossenses e os paraguaios eram tudo da mesma panela, e me criei com essa música. Eu queria ser um gafanhoto pra morar dentro de uma viola paraguaia.








PantanalROCK.com.br – O que a senhora acha das variedades no mercado musical?
Helena – É só uma coisa o tempo todo. São sempre as mulheres peladas na tevê, que vendem o corpo para ficarem ricas e atrapalham quem realmente faz alguma música de qualidade.

PantanalROCK.com.br – E o que a senhora acha do rock?
Helena – Do barulho eu não gosto não, mas eu acho a coisa mais linda os dedos desses meninos roqueiros, que quase se perdem nas cordas.

PantanalROCK.com.br – Quais seus planos para a carreira? A senhora está voltando para Mato Grosso do Sul?
Helena – É. Agora estou com uma gravadora daqui, mas ainda tá difícil. Uma vez o governador me chamou e disse pra eu pedir o que quisesse como reconhecimento por parte da minha terra... Daí eu estou esperando até hoje porque me disseram que iam me arrumar uma casa. Estou com as coisas certas pra gravar por aqui mesmo. Isso vai ser muito bom, porque os músicos por aqui, coitados, precisam correr muito atrás de um bom patrocínio ou então terem dinheiro no bolso pra bancar se querem fazer alguma coisa. Só falta, pra completar, ter um cantinho pra ficar de volta nesta terra.

Entrevista originalmente concedida para a Revista Leia, publicada na edição 19, em outubro de 2003, extraído de
Pantanal do Rock
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Formato avi, 497 mega, 55 minutos
576x320 px

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PARTE 2
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